Lilyan's POV
Se não
houvesse mais ninguém nos corredores quando eu sai do apartamento de
Max, eu ainda teria procurado outra Lilyan pelo qual Kelsey chamava.
Não me veio motivos na cabeça para ela estar ali e muito menos para
ela estar gritando o meu nome. Virei para trás com um sorriso
amarelo e esperei que ela viesse até mim.
- Oi? -
respondi. - Thomas não está em casa.
- Eu sei.
Ele me disse.
- Então...
Vocês voltaram?
- Ainda não
e não por sua causa.
- Primeiro
que a culpa de vocês acabarem não foi minha, que fique bem claro
antes de você sair espalhando esse tipo de história por aí.
- Claro que
a culpa foi sua ou você realmente acha que se você, mosca morta,
não tivesse aparecido, nós teríamos terminado?
-
Sinceramente, eu não sei. Mas se você veio pra causa uma confusão,
não vai conseguir. Com licença. - passe por ela, em direção ao
meu apartamento quando ela voltou a falar, me impedindo de tal ato.
- Não vim
comprar briga com você, pelo contrário. Confio tanto em você que
tenho algo pra você entregar a Thomas.
- Detesto
ironias, já disse isso?
- Ok, eu
detesto você e deixo isso bem claro, mas quero que você entregue
isso a ele. - estendeu um envelope amarelo e eu o peguei como se
fosse algo infectado com uma doença contagiosa. Nada de normal podia
vir dela. - Pelo simples fato de ver a sua reação quando souber,
nesse minuto, que eu estou grávida.
- Está o
que?
- Grávida.
- E você
acha que o pai seria o Tom? Tenho certeza que ele teria mais juízo
na cabeça. É só isso?
- Se não
quiser acreditar, abra os resultados. Não! Melhor! Esteja com ele
quando fizer isso, daí não restaram dúvidas.
- Você é
impossível, garota. - ri e analisei o que estava em minhas mãos. -
Por isso que você diz que vão voltar?
- Mas é
claro! Ele tem que estar perto do que ele dele.
- Não
necessariamente vocês vão estar casados. Ele é uma boa pessoa, não
pra você.
- E você
acha mesmo que é pra você? Poupe-me, queridinha. Ele nunca vai
ficar com você. Você nunca vai roubá-lo de mim.
- Não quero
nada que pertença a ninguém e eu estou muito feliz com a minha
situação com Seev. Só acho que você deveria colocar mais seus pés
no chão. Conselho de amiga: Não é porque você está grávida ou
supostamente grávida, que ele é obrigado a casar com você. Ele não
é o tipo de pessoa que está com alguém sem gostar.
- É o que
vamos ver. Você não me conhece, Carter.
- Então
ótimo, vamos ver no que dá essa sua história. Agora com licença,
de novo, eu vou pra minha casa. – novamente virei de costas e
continuei andando. Dessa vez não fui impedida e mais uma vez,
quando estava abrindo a porta, ouvi mais um de seus avisos: - Eu
espero ver você se arrepender de todas as suas palavrinhas
bonitinhas, Lilyan! Me aguarde!
- Oh, claro
Kelsey. – dei um sorriso de canto de boca e entrei, deixando-a no
corredor. Paz novamente, que coisa maravilhosa de se sentir. Aquela
garota era visivelmente desequilibrada. Joguei o envelope no sofá e
tomei um copo d'água. Grávida. Quem diria.
Obviamente
eu estava achando um tanto estranho, porque não me passava pela
cabeça que Tom seria tão pateticamente descuidado, mas acho que ele
foi. Podia até parecer que não estava preocupada e que o meu...
Amigo. Poderia chamar ele assim? Não acharia nenhuma palavra melhor
pra descrever sua posição já que “Amor platônico” não estava
bem encaixado no meu vocabulário.
A verdade é
que por mais que eu me preocupasse, não havia nada que eu pudesse
fazer, mas como já havia dito antes, não seria por isso que ele
seria obrigado e estar com ele. Ou seria?
Havia percebido que tudo era possível quando se tratava de pessoa
sem equilíbrio emocional. Outra conclusão era que Siva não confiou
em mim o suficiente para contar sobre a agradável surpresa de
Nareesha e suas palavras que não haviam sido nem doces, sutis,
meigas e bem pensadas, passavam na minha cabeça a quase todo
instante, me impedindo de pensar em qualquer coisa.
Era tarde de
sábado quando eu acordei com a campainha tocando. Não costumava
acordar tão tarde, até porque eu gostava de sair para correr no
parque perto do hotel, mas ultimamente eu estava mais sedentária do
que jamais estive na vida, acomodada em casa, comendo chocolates,
sorvetes e xícaras descontroladas de café. Corri até a porta e
observei quem era pela brecha que abri da porta. Bianca olhava
desconfiava entre os corredores e para a janela do lado de fora. Ela
estava com duas caixas empilhadas nos braços. Abri a porta e
mandei-a entrar.
- Nunca
pensei que artigos de casa pesavam tanto! - disse colocando as
caixas em um canto da sala.
- Boa dia
pra você, também. Pensei que viajasse só amanhã.
- E é
verdade, mas eu ainda preciso de ajuda com aquilo ali. Já estou
despachando minhas coisas pra casa. Ah, casa! Novinha em folha, só
minha, no centro de Madri! Pensei em comprar um cachorro pra não
ficar sozinha e um hamster e chama-lo de Carlos! - Bianca pulava de
alegria na minha frente, seus olhos brilhando ao falar de eu futuro.
- Carlos?
Em um hamster? Só pode estar de brincadeira. - rimos. - Você tem
mesmo que ir embora daqui? Vai me deixar sozinha?
- Você não
está sozinha, bobinha! Os meninos estão aqui, Seev está aqui.
Todos no jornal te amam e você com certeza vai conseguir entrar
naquela faculdade e vai ser uma excelente jornalista. De qualquer
forma, acho que já está na minha hora de voltar pra casa. Londres
já deu o que tinha que dar, uma cidades de loucos!
- Seev? Não
por muito tempo.
- Seu
estágio acaba só no mês que vem, Lils.
- Não é
bem por isso que não temos muito tempo. Longa história.
- Vai ter
muito tempo pra me contar no caminho do aeroporto. Tem muito mais
coisas de onde vieram essas duas aí. - Tentei me trocar o mais
rápido possível, dividindo meu tempo entre tomar um banho, trocar
de roupa e comer alguma coisa, tudo isso ao som de uma Bianca
animada com a partida. Não entendia porque as coisas eram bem assim
e ela podia só mostrar que estava triste por ir. Talvez ela não
quisesse estar triste.
Pegamos o
primeiro táxi em direção ao aeroporto e demoraríamos um bom
tempo até chegar lá. Aeroportos eram sempre tão longes e o
trânsito era tão congestionado.
Ao todo
foram 10 caixas levadas para o setor das cargas, algumas pesadas,
outras mais leves e todas marcadas com letras grandes e vermelhas. Na
volta pra casa, acabamos passando em um restaurante no parque, já
que a comida que vendiam no aeroporto era cara, ruim e fria, como
disse Bianca. Em seguida seguimos para nossa última vez comprando
juntas nos brechós conhecidos, atrás de alguma coisa que pudesse se
aproveitar.
- É, hoje
estava meio fraco por lá. Nem me importei com aquela ruiva aguada
pegando o que seria o meu futuro short de couro preto, MAS EU NEM
QUERIA MESMO! - gritou para uma garota que ia no lado aposto ao
nosso, levando uma sacola em mãos.
- Fica
calada, Bianca. Ela é o dobro do nosso tamanho e não tem cara de
bons amigos.
- Ela não
tem cara de nada, na verdade. Aquela sem sal. ESPERO QUE VOCÊ
ENGORDE! - gritava. A garota já estava longe mas nos olhou com uma
expressão de quem não se importava com o que a minha amiga
gritava.
- Deixando
bem claro que se um dia você se meter em confusão, eu sou a
primeira a correr e deixar você sozinha.
Ao longo do
caminho continuamos conversando, relembrando de quando chegamos em
Londres e do estágio. Das pessoas que gostávamos e aquelas que
preferíamos nos manter bem longe e olha que não eram poucas. Ainda
haviam aquelas que sentiríamos falta da doce rotina que nos
proporcionou, como o Sr. Giuseppe e a sua sorveteria com o melhor
sorvete que eu havia tomado. Era pra lá que íamos quando meu
celular tocou. Olhei rapidamente o visor, sem tira-lo da bolsa.
Siva.
- Você não
vai atender? - Bianca perguntou.
- Deveria?
- Claro.
Isso é pergunta? - dei de ombros e peguei o celular, que ainda
tocava, a contra gosto.
- Alô?
-
Antigamente eu tinha uma certa namorada que me esperava no
aeroporto... - riu. Revirei os olhos e respondi: - Então ela não
era eu.
- Claro que
era e eu senti sua falta no desembarque.
- Tive que
resolver algumas coisas.
- E você
ainda não está em casa. Posso saber onde está, se ainda tenho o
direito de perguntar?
- Perto do
hotel, indo tomar um sorvete...
- Quer que
eu dê uma passadinha por aí? Eu estou realmente com saudades. -
olhei pra Bia com cara de que não estava gostando da ideia e ela me
olhou confusa.
- Não
precisa, eu já estou voltando.
- Se você
quer assim, tudo bem. - disse desanimado. Odiava aquele tom de voz
daquele jeito. Me sentia culpada por aquele sentimento vindo dele,
mas não, precisava ser forte e ainda haviam coisas a serem
esclarecidas.
- Se
importa de esperar por mim na piscina? Acho que dessa vez precisamos
mesmo conversa, Seev.
- Sobre? -
houve uma pausa, em que ele esperava que eu lhe adiantasse alguma
coisa, mas não o fiz. - Quer saber, não quero saber agora. Nos
vemos daqui a pouco. - desligou.
Apesar de
Bianca ter dito que teríamos muito tempo para falar sobre Siva, não
havia falado nada, como se isso fosse algo pra se adiar mas eu
sabia, a partir do momento que ele havia me ligado,ou até antes
disso, que não podia mais adiar e teria que tomar decisões
importantes, daquelas que eu podia me arrepender mas tiraria um peso
enorme dos meus ombros, que eu sentia que estava carregando desde o
dia anterior, com a conversa com Nareesha, com suas palavras tão
ridículas e bem elaboradas fazendo sentido e com a animação que
estava em falta em mim.
Certas
coisas faziam sentido no mundo, mas eu e ele, acho que nunca fizera
ou parara de fazer. Nós éramos uma farsa.