sábado, 22 de dezembro de 2012

Capítulo 31


Lily's POV
– Seev, relaxa, vai ficar tudo bem! Eu aguentei essas semanas sem você e um dia a mais não vai me matar. - eu explicava para Siva e tentava amenizar sua preocupação em me deixar sozinha, já que por conta de aviões lotados, ele e Thomas não conseguiram embarcar. A entrada estava vazia agora, os meninos já deviam ter chegado há horas e eu fui aproveitar a sexta-feira na sorveteria com o Sr. Giuseppe, que me sedia os bons ouvidos de bom grado para despejar todos os meus problemas. Ele tinha me feito muito companhia e na maioria das horas vagas eu ia ajudar na sorveteria. O impasse de hoje era se eu tinha feito certo ou não em ter organizado a festa despedida de Bianca e depois ter ido embora. Apesar de tudo, eu queria que ela se sentisse acolhida por todo mundo e eu esperava que ela tivesse gostado da torta. Sr. Giuseppe dizia que eu tinha um bom coração. Talvez eu só fosse besta demais.
– Eu não gosto da idéia de você ficar sozinha, você tava tão mal.
– Não vou ficar sozinha! Jay me mandou uma mensagem me chamando pra beber no apartamento dele. Eu acabei de chegar em casa.
– Estava na sorveteria?
– Como sempre! - eu ri. Em direção a Hollie, vi uma garota morena conversando com ela. A recepcionista estava aparentemente confusa.
– Srta. Lilyan! - ela gritou. Sorri em resposta e ela fez sinal com a mão para que eu fosse até lá.
– Amor, eu preciso desligar agora, quando chegar no apartamento do Jay eu ligo!
– Certo, não beba demais.
– R-e-l-a-x-a! - gargalhei e desliguei o telefone. Cheguei na mesa e Hollie estava falando.
– Olha, está srta. Pode lhe dar as informações que está pedindo.
– Não precisava te-la chamado. - a garota dizia pra Hollie. - Eu já estava de saída. - direcionou a frase pra mim.
– Ela é a namorada do Sr. Kaneswaran.
– Eu sei. Eu preciso ir agora.
– Não, não vai não! - falei. - Eu sou Lilyan Carter, pode me chamar de Lily se quiser. - sorri e estendi minha mão para que ela apertasse.
– Eu sei quem você é, na verdade. - ela sorriu de volta.
– Bom, eu ainda não sei quem você é!
– Vocês estão se dando bem, vão para o restaurante, noite do piano. - falou Hollie por trás dos óculos. - E vocês precisam desocupar a minha mesa.
– Não precisa, sério, eu já estou de saída.
– Eu insisto! - eu dizia sorrindo. - Se você tiver alguma pergunta pra fazer, pode fazer e ainda podemos tomar um ÓTIMO cappuccino, eles fazem isso como ninguém naquele restaurante! - A levei para uma das minhas mesas preferidas, do lado da janela, vista para os jardins. Não sabia o por que, mas aquela garota parecia bem simpática e deveria conhecer o Seev, por a deixarem entrar aqui. Ao mesmo tempo, um frio na minha barriga se formava, e eu garanto que, todas as vezes que aquela sensação ridícula aparecia, não eram coisas muito boas. Odiava a minha barriga.
– Um cappuccino com bastante chantilly, por favor. - pedi ao garçom. - E você, o que quer? - perguntei á garota até então desconhecida que sentava na minha frente.
– Uma água com gás, por favor. - quando o garçom se retirou, o som do piano encheu os meus ouvidos.
– Então... Você quem é? - perguntei risonha, apoiando meu rosto sobre as mãos.
– Nareesha McCaffrey, prazer, eu acho. - ela era Nareesha? Eu imaginava que ela era bem mais... Malvada, ruim, frio e cruel. Não simpática.
– Você é a Nareesha? Nossa, prazer! Ouvi falar de você algumas vezes!
– Você não vai mandar eu sair daqui?
– Por que eu faria isso?
– Digamos que não me falaram bem de você.
– Que horror! - rimos. - Mas então, quem te falou isso?
– Acho melhor deixarmos isso de fora da conversa.
– Não, não, não, eu quero saber, ok? Relaxa, não sou de confusão. - tentei parecer amigável para tentar descobrir quem estava dizendo que eu não era boa coisa. Até parece que eu faço alguma coisa com alguém.
– Kelsey me contou uma vez...
– Não, para. - a interrompi. - Já sei até sobre o que ela falou... Thomas.
– Exato. - ela tomou um gole da água e continuou. - Ela diz que a culpa do namoro ter acabado é sua.
– Minha não é, tenho certeza. A única coisa que eu fiz foi defende-lo quando ela estava fazendo ceninha no meio de todo mundo. Ele o tratava muito mal, e eu como amiga dele, o defendi. Nada demais. A decisão seguinte foi toda dele.
– Entendo... Eu nunca pensei, sabe, que eles iam realmente acabar um dia. Eles davam tempos e depois estavam juntos de novo, no maior amor. Com isso você nunca sabe quando vão terminar de verdade.
– Mas eu te garanto que pelo menos, quando eu cheguei aqui, nos últimos dois meses, eles iam de mal a pior. Foi melhor, eu acredito que sim. Tom me fala que ficou feliz, mas ultimamente não nos falamos muito.
– Sinto falta dos meninos, sinto falta do hotel, sinto falta do...
– Siva?
– Olha Lilyan, o que eu fiz foi errado. Eu fui embora, sem dizer nada, sumi e acabei o que eu tinha com ele. Não pensei no que eu poderia sentir depois e muito menos como ele ia se sentir. Você é uma pessoa muito boa, pelo que estou vendo, fico feliz que ele tenha encontrado você pra ajudar a preencher um vazio que eu devo ter deixado. - “Está querendo dizer que eu estou aqui pra preencher vazios?”, pensei.
– Acho que ele está feliz sim, nos damos muito bem e eu gosto dele. Longas datas, sabe?
– Era fã?
– Com absoluta certeza e ainda sou, pra ser exata.
– Eu o conheci antes disso tudo. Muita coisa mudou nesse tempo, ainda estou me decidindo se gosto disso ou não, porque veja, eu mesma não aguentei a “pressão”, você também não vai aguentar muito tempo. - “Eu não vou aguentar a pressão? Que eu saiba não fui eu quem foi embora!”. Minha cabeça estava explodindo de pensamentos a cada frase que saia da boca de Nareesha. Ela parecia uma ótima pessoa, claro, mas estava bem claro que ainda tínhamos um ENORME abismo nos separando. Quanto mais o tempo passava na mesa, mais eu tinha a certeza que no fundo ela não gostava de mim. Foram festivais de “Você não vai aguentar a pressão”, “Ainda bem que você está aqui para tapar todos os buracos emocionais que eu deixei.”, “Não leve nada disso para o lado pessoal.”. Como não levar isso para o lado pessoal? Não é todo dia que você encontra com a ex do seu namorado e ela praticamente quer fazer você acreditar que você não era capaz de estar no lugar que ela estava. Mas esse era só o começo. Antes eu tivesse me levantado da mesa, dito que tinha coisas para arrumar, mas eu não tinha como saber que o golpe de misericórdia ainda estava por vir.
– Nossa, olha a hora! Com toda essa conversa eu nem vi o tempo passar! Olha, sinto que já nos conhecemos a meses! - sorri amarelo e respondi em seguida:
– Eu digo o mesmo, querida!
– Quase ia me esquecendo... Eu posso perguntar como anda o … Seev?
– Ele vai bem. Estava falando com ele no telefone antes de encontrar você na recepção...
– Ele ia chegar hoje, não era?
– Ia sim, mas teve problemas com o vôo, ele e Tom.
– Eu ia conversar com ele de novo hoje, terminar algumas coisas que ele não me deixou continuar na nossa última conversa.
– Perdão, última conversa?
– Ele não lhe contou?
– Me contou o que?
– Eu fiz uma... Visitinha, há duas semanas. - visitinha... O que ela queria dizer com “visitinha”?
– O que você quer dizer com isso, exatamente?
– Então você não está sabendo de nada mesmo? - ela gargalhou. Detestei aquilo. - Como seu namorado está confiando em você, Lilyan!
– Olha Nareesha, você está querendo questionar a confiança que o MEU namorado tem em mim?
– Não esqueça que ele também foi meu. - tomou um pouco de sua água e bateu suas unhas na mesa.
– Mas não é mais! Sério, nessa conversa toda eu só conseguir tirar uma conclusão, e não gostei dela: Ou você tem um problema comigo ou tem algum problema de DEIXAR SEU EM EM PAZ.
– Já que a confiança ou a falta dela está um caso sério nesse lugar, eu vou te contar o que foi que eu vim fazer há duas semanas atrás aqui. Eu vim me desculpar com ele, pedir pra voltar! Vim mesmo e não precisa fazer essa cara de impressionada não. Faria tudo isso de novo.
– Mas ele está namorando comigo!
– Eu sei, eu sei, é uma pena. Mas eu sei que ele ainda gosta de mim, ele não pode ter me esquecido tão fácil, eu diria.
– Você acha mesmo que ele estaria comigo só pra não pensar em você, Nareesha? Que ridículo. Você não é o centro do mundo!
– Do mundo não, mas do mundo dele eu era. E eu to tentando lhe mostrar isso a conversa inteira, Lilyan! Ou vai dizer que ele toca no meu nome numa boa? Que vocês dois já conversaram sobre o por que que a gente terminou? - permaneci calada, fornecendo automaticamente a resposta que ela queria. - Foi exatamente o que eu pensei. Você é uma garota legal, sabia? Vai mesmo continuar com alguém que gosta de outra? Que não lhe conta que a ex veio conversar, nem que fosse pra lhe dar uma resposta bonita, dizendo que nunca ia deixar você?
– Se ele gostasse de você, ele me falaria, ele não teria seguido em frente.
– Garota, ele não fala nem as coisas simples, quanto mais isso. Acho que está na hora de vocês terem uma conversinha, ein?
– O que a gente conversa ou não, com certeza não é seu problema.
– Oh, claro que não!
– Eu... Eu vou indo agora. Está tarde. - me levantei rapidamente, pegando minha bolsa e continuando a falar. - Pode colocar as coisas na minha conta, depois eu acerto isso.
– Pode ir, Lilyan. Você pode fugir o quanto quiser mas eu estou realmente feliz de ter tido essa conversa com você. Lembre-se: ele pode até gostar de você, mas ele não te ama. Não vive com esse fardo não, ta fofa?
Fofa. Merda, merda, merda. Por que agora na minha cabeça, tudo que ela falava fazia sentido? Por que eu não conseguia dar respostas auto-suficientes para mostrar que nossa relação era forte, bonita e confiante o suficiente? Não éramos fortes o suficiente? Nada que ele pudesse me dizer iria me fazer ficar mais calma com relação a ele não ter me contado sobre sua “visitinha”. Ele sabia que eu não era do tipo de brigas, não perco o controlo com facilidade e o principal, minha confiança nele era grande o bastante para aguentar qualquer coisa que ele viesse me falar, mesmo que eu mesmo tenha falhado em questões de confiar ou de sinceridade. Mas os meus segredos não sairiam de onde aconteceram, já esse tipo de coisa, com certeza mais pessoas viram nesse hotel, aqui nunca para, de qualquer jeito! Em várias coisas Nareesha podia estar certa, mas a principal era: Precisávamos conversar. O mais rápido possível. Já dentro do elevador, senti meu celular tocar, mas eu não conhecia o número, o que quer que fosse, deveria ser importante e eu precisava me distrair com alguma coisa, nem que fosse com mais coisas pra pensar, sejam elas boas ou ruins.
– Alô?
– Lily?
– Max?
– Eu mesmo. Está ocupada? - Max me ligando de noite, por que com tudo hoje eu estava tendo maus pressentimentos?
– Não, na verdade estou indo pra casa nesse minutinho. Por que?
– Já que você está subindo, pode passar aqui? Tem alguém que precisa de você.
– Precisa de mim? Quem é?
– Você vai ver. - desligou o telefone e as portas na minha frente se abriram. Antes de passar na casa de Max, passei na minha pra deixar a bolsa e a pasta.
Toquei a campainha e a porta foi aberta rapidamente, dando visão para a sala ampla com uma garota deitada no sofá, chorando. E eu conhecia ela. Tentei espiar para ter certeza do que eu estava vendo, mas ele entrou na minha frente e fechou a porta.
– Olha, eu sei que vocês estavam sem se falar mas eu não sabia pra quem ligar, Lils.
– Era Bianca?
– Ou o que restou dela.
– Max, o que aconteceu? Você está me preocupando...
– Ela tentou voltar com Nathan, mas...
– ELA TINHA ACABADO COM ELE? - fiquei surpresa. Como eles tinham terminado? Será que ela havia sido tão grossa comigo quanto foi com ele? Pelo que eu havia entendido até aqui, ele não tivera uma reação tão boa com ela voltando atrás.
– Tinha...
– E o que ele disse? Vamos, me fala logo!
– Ele não reagiu bem e bom, antes de começar a não conseguir falar mais nada, ela disse que ele estava com outra.
– Eu posso entrar? - perguntei. A esse ponto, a minha amiga nesse estado, eu não queria mais nem saber se ela estava com raiva de mim ou não. Meu lado besta estava sempre disposta a ajudar.
– Sinta-se em casa. - ele abriu a porta e entrou antes de mim. - Bia... Acho que tem alguém que quer falar com você. - a garota tirou a cabeça de dentro das almofadas e eu pude ver seu rosto vermelho e já inchado de chorar, sua blusa estava molhada, e seu rímel havia deixado manchas pretas debaixo dos olhos. Ela se levantou depressa e veio em minha direção correndo, me abraçando e chorando ainda mais.
– Lilyan, me perdoa! Por tudo! Eu nunca quis deixar de falar com você, eu sou uma idiota! Não sabia o que eu estava fazendo, eu preciso de você! Lily, você é minha melhor amiga! Meu Deus, me desculpa! - ela soluçava. Olhei pra Max com os olhos cheios de lágrimas e retribui o abraço de Bia.
– Não se preocupa com isso agora, fica calma... Eu não vou te deixar, ok? Está tudo bem. Se acalma.
– Não me deixa sozinha, Lilis, por favor!
– Não vou. - a levei para o sofá e a fiz sentar, tentando fazer com que ela parasse de chorar. - Max, me dá um copo de água com açúcar, se você tiver aí. - o garoto veio com o copo e nós esperamos que Bianca se acalmasse. Passamos um bom tempo fazendo-a rir e até mesmo as péssimas piadas de Max estavam ajudando. Quando eu percebi que ela já estava totalmente calma, ou quase isso, eu voltei a perguntar:
– Bia, o que aconteceu, de verdade? - ela suspirou antes de me responder.
– Bem, eu fui uma idiota e tentei voltar atrás... Sabe Lils, nem todas as pessoas são tão boas como você. Acontece que eu pensei que Nathan podia me perdoar por tudo e não foi bem assim. Ele seguiu em frente bem mais rápido do que eu pensava, mas não se espera nada mais do que isso de uma estrela. São todos assim, mas a culpa foi minha.
– Ei, todos não, eu ainda estou aqui, se querem saber. - Max reclamou.
– Desculpa, carequinha. Não foi bem isso que eu quis dizer. Você é uma ótima pessoa, obrigada por me aguentar.
– Bia, deixa eu pedir uma coisa. - falei rindo.
– Fala.
– Quando você for embora de algum lugar, não sai cortando relação com todo mundo. É ridículo, sua ridícula!
Em muito tempo nós estávamos rindo de novo, juntas. Eu me sentia muito bem quando voltava a falar com alguém importante. Vai ver as amizades são mesmo assim, precisam de grandes problemas pra mostrar que são fortes. Se forem realmente, elas vão resistir aos piores problemas, como agora.
Kelsey's POV
Estava em casa quando meu telefone havia começado a tocar. Tom. Eu sabia que ele iria ligar uma hora ou outra, ele sempre acaba ligando.
– Olá queridinho. Como vão as coisas?
– Não vem com essa de queridinho, Kelsey, não estou pra brincadeiras com você.
– Queria ver um dia que estivesse... - bufei. - Mas então, o que você quer de mim?
– Distância, mas como está difícil de conseguir... Quero saber onde estão os exames que você disse que me mandaria. Já estão no meu apartamento ou não conseguiu uma fraude muito boa?
– Nossa, amor. É do nosso filho que você está falando.
– Nosso filho? Olha, eu só acredito quando uma prova aparecer e aparentemente você não está com ela.
– Na verdade estou. Mas eu sei que você não está em Londres. Não há porque ir deixar em seu humilde apartamento enquanto você não estiver por perto.
– Seu prazo está acabando. Se eu fosse você, deixaria isso debaixo da minha porta até hoje.
– Seu pedido é uma ordem.
– Jogue debaixo da porta ou entregue a algum dos meninos se conseguir cruzar com algum.
– Pode deixar, estou saindo de casa agora.
– Então está certo. Eu ligo depois, dependendo do que eu encontrar amanhã. - desligou o telefone e eu o atirei para bem longe. Revirei as gavetas procurando o envelope grande e amarelo. Pegando-o, guardei dentro da bolsa e já com o casaco, sai de casa, pegando o primeiro taxi que consegui pegar. Eram quase meia noite e eu ainda avistava pessoas andando na rua. Dentro do hotel, a recepcionista estava sentada, escrevendo algo em um computador velho em sua mesa.
– Boa noite. - disse. - Tenho uma encomenda pra deixar para Thomas.
– Desculpe, srta. Kelsey, ele não se encontra aqui.
– É de urgência, sabe. Eu sei que ele não está, ele mesmo me mandou aqui para deixar com um dos rapazes.
– Ele a mandou aqui? - olhou por cima de seus óculos. Quem ela pensava que era para desconfiar de mim?
– Foi isso que você ouviu.
– Hm. Você sabe o caminho.
– Obrigada. - peguei o caminho mais curto para os elevadores. Ah, eu realmente conhecia aquele caminho muito bem e não era porque a “Srta. Lilyan Perfeita E Sonsa Carter” tinha conseguido acabar toda uma história que eu tinha com Thomas, que eu deixaria de aparecer em sua vida. Isso todos podiam ter certeza, ninguém ia se ver livre de mim tão cedo.
Caminhei pelo corredor do seu andar, observando se alguém passaria por ali para que eu pudesse entregar o envelope. Não me agradava a ideia de joga-lo debaixo da porta, porque as camareiras tinham acesso aos quartos, e vai que por muito azar, ele acabaria no lixo?
Também não queria bater no quarto de um dos meninos, por causa da hora e esse, na verdade, era o último caso. Sentei-me em uma das cadeiras, longe de seu apartamento e esperei de 10 a 15 minutos até que me aparece alguém.
Melhor que garotos de boybands, melhor do que camareiras e naquele momento, melhor até que o próprio Thomas. A pessoa ideal para entregar um envelope com exames de gravidez. Alguém para que eu adoraria mostrar que, quaisquer que fossem as suas intenções, agora elas não valiam de nada. Uma garotinha intrometida com quem eu já estava querendo um motivo para mostrar que ninguém mexe comigo.
Eu iria mostrar pra ela, mosquinha morta, que nem em seus sonhos de fã, me veria longe do Parker.
– Hey Lilyan! Você pode vir aqui, por favor?

Capítulo 30


[/N.a: A música do capítulo é Heart of Stone - Iko, deixem carregando e dêem play quando eu avisar.]
Duas semanas voaram. Um pouco mais de 24 horas para voltar pra casa agora.
Levava o restante de uma torta e uma garrafa de um whisky barato nas mãos que eu havia ganhando. Por algum motivo, as garotas do jornal resolveram fazer uma "festa" de despedida no final do expediente. Ninguém me contou quem era a responsável por aquela tentativa de demonstração de amizade e compaixão, no final das contas só me mandaram sentar e relaxar. Na minha opinião, não havia tantas coisas assim para serem comemoradas, mas fiquei feliz em pelo menos, tem ganhado algo beber e esquecer de algumas coisas das últimas semanas que passaram. Lilyan continuava sem falar comigo e acabara cumprindo o que eu "pedi" para fazer no dia em que eu decidi que seria melhor ela se afastar de mim, que era não olhar mais na minha cara. Aparentemente eu estava ficando boa em afastar as pessoas e nem a velha bisbilhoteira do meu andar apareceu para me entregar tortas ou biscoitos. Minhas tarde estavam completamente vazias, literalmente, sem besteiras para beliscar. Uma pessoa estava passando muito pela minha cabeça e seus olhos também. Nathan. Lembrava dele a cada segundo que o relógio batia, a cada vez que eu entrava naquele hotel e todas as vezes que andava pelo seu corredor, o que eu não fazia mais. Me peguei chorando por ele algumas vezes quando estava sozinha, praticamente todo o tempo. Me perguntava, ás vezes, o que eu tinha na cabeça, mas lembrava do motivo pelo qual eu havia feito tudo e me sentia obrigada a não fazer mais aquilo, chorar não mudaria nada, nunca mudou.
Estava difícil entrar no hotel nessa noite. Um grupo gigantesco com mais de 50 garotas gritando estavam na frente do hotel e eu me perguntando o que elas faziam ali, pois pelos boatos que eu ouvi, os meninos só chegariam no domingo, quando eu estaria bem longe dali, evitando mais dor ao ver certos olhos verdes, por sorte. Me espremi entre uma e outra, pedindo licença com toda a paciência que eu tinha no meio da multidão. O saguão estava bem menos cheio. Alguns seguranças faziam guarda nas portas e as pessoas saiam do elevador em direção ao restaurante para a "Noite de música ao vivo.". Basicamente era um cara tocando piano.
– Hey, Hollie. - cumprimentei a recepcionista e coloquei as coisas que estavam nas minhas mãos no balcão por um segundo.
– Boa noite Srta. Fajardo, precisa de alguma coisa?
– Err... O que esse pessoal faz aí na frente? Os meninos só iam chegar no domingo, não?
– Iam. - respondeu sem tirar os olhos da tela de seu computador. - Alguns deles mudaram de planos e estão voltando hoje, pelo que percebemos, algumas fãs descobriram e vieram espera-los aqui. Mas não se preocupe, o transtorno nunca dura muito tempo, eles entrarão pelos fundos.
Mudaram de planos. Será que eu poderia ser mais azarada?
– Você sabe me dizer se... Hm... Quem vai chegar hoje?
– A Srta. quer saber se o garoto Sykes vai chegar, não é mesmo? - olhou para mim por cima de seus óculos com armações escuras e sorriu.
– Nathan? - eu ri. - Não, claro que não! Por que eu iria querer saber dele? Não quero saber de...
– Sim, ele vai chegar hoje. - me interrompeu e voltou sua atenção para o que estava fazendo. E sim, eu poderia ser tão azarada a esse ponto.
– Oh, ah, ok. Não faz diferença. - peguei minhas coisas no balcão mas a memória do que eu realmente tinha ido até ali, falar com Hollie, me veio a cabeça novamente. - Hollie você pode mandar algumas caixas para o meu quarto?
– Caixas, srta.?
– Sim, caixas. Tem algumas coisas ainda que eu tenho que embalar lá em cima e eu preciso delas, o mais rápido que você puder, por favor.
– Claro! Assim que pudermos mandamos as caixas para o seu quarto. - sorriu pra mim e voltou sua atenção para a porta, onde um dos seguranças tinha impedido de uma menina entrar correndo.
A caminho dos corredores do elevador, tudo estava mais calmo e vazio. Uma garota morena estava sentada em um dos bancos, olhando distraída para os lados e constantemente para o relógio. Ela não morava lá, mas eu sabia que conhecia aquele rosto de algum lugar, porém a chegada do elevador me faz parar de tentar lembrar de onde. Minhas costas doíam com o peso da minha bolsa, além de a garrafa de whisky pesar em um dos meus braços. Os segundos que levaram até parar no meu andar foram torturantes para a minha coluna. Ao chegar no apertamento, coloquei as coisas que estavam nos braços em cima da mesa da sala, joguei a bolsa em qualquer lugar e atirei-me no sofá pensando em absolutamente nada. Ou em tudo. Ver todo aquele lugar arrumado, com a maioria das minhas coisas em malas ou em caixas podia até doer, mas doía ainda mais em saber que havia feito aquilo tudo sozinha. Ficar sozinha nos últimos dias tinha sido difícil, ficar sem Lily tinha sido difícil, mas eu só tinha mais um dia e meio, nada que eu não pudesse suportar.
Mentira.
Precisei ocupar a minha cabeça e ataquei o restante da torta que estava em cima da mesa, levando-a para frente de uma das janelas que cobriam quase toda a parede. Estava jantando torta com uma das visões mais lindas da cidade e sozinha. Completamente sozinha. Comer torta não estava me ajudando. Chantili podia ser mais depressivo do que chocolate.
Subi as escadas procurando o que fazer enquanto não mandavam as caixas pra cá. Organizei os meus All Star por cor, dobrei minhas roupas de novo, mudei de local as minhas malas, limpei os pinceis de maquiagem que eu mal havia usado e cheguei até a trocar de roupa, colocando um short antigo e uma blusa de mangas branca. E nada de chegarem as caixas e já haviam se passado uma hora e meia. Desci apressada e se pudesse sair fumaça da minha cabeça por causa da raiva, com certeza sairia. Cheguei a pegar o telefone para ligar para a recepção, mas felizmente a campainha soou. Abre uma porta de uma vez e falei:
– Finalmente! Se isso for depressa então eu... - me interrompi ao ver o garoto careca na minha frente, surpresa. - Max? O que você ta fazendo aqui? Eu pensei que era alguém trazendo as...
– Caixas? Bom, elas estão aqui! Surpresa? Sou muito melhor que o carregador para subir com um monte de papelão. - abriu um sorriso e levantou algumas caixas empilhadas que trazia de trás dele. - Eu estava passando pela recepção e Hollie pediu gentilmente que eu as trouxesse aqui. - estendeu as caixas pra mim e eu peguei, jogando do lado da porta.
– Por acaso você não quer entrar e tomar alguma coisa? Em agradecimento por trazer as caixas, você sabe, não precisava.
– Claro, obrigada! - ele se sentou no sofá e olhou o apartamento.
– Está um pouco bagunçado, não repara. Bom - eu disse, indo até a garrafa de whisky e tirando-o da sacola de papel que estava. - Eu só tenho isso para oferecer no momento, meus chás acabaram.
– Garanto que nada é melhor que um whisky. - servi em dois copos e enquanto o garoto estava no sofá bebendo, me sentei no chão e espalhei as caixas de modo a pegar tudo que precisava e embalar com papel bolha.
– Você não quer ajuda? - perguntou.
– Não precisa, Max. Obrigada! - sorri e continuei embalando uma parte das coisas antes de guarda-las na caixa.
[Deêm play na música e deixem tocando até o final]
– Vem cá, você tem realmente problemas em aceitar ajuda das pessoas? - o olhei, surpresa. Realmente não esperava que ele viesse com essa. Não esperava que NINGUÉM viesse com uma dessas.
– Quando ela é uma estrela, sim, eu tenho.
– E de deixar as pessoas por perto também, não é? - senti minhas mãos gelarem quando ele mencionou aquilo. Provava que ele não estava ali só para beber ou levar algumas caixas. Ele sabia de alguma coisa. Apenas balancei minha cabeça em sinal negativo.
– Não sei do que você está falando.
– Claro que sabe, Bianca. Eu sei de muita coisa.
– Olha Max, com certeza você NÃO sabe.
– Não esqueça que quem você magoou foi um dos meus melhores amigos e a namorada de um deles. Então...
– Eu já disse que não sei do que você está falando! - tomei um gole do whisky tentando conter tudo que poderia sair.
– Você não precisa esconder pra mim, ao contrário das pessoas que você afastou por conta própria, eu estou aqui disposto a conversar e lhe ajudar, quem sabe.
– O que você sabe?
– De tudo. E não creio que Lilyan seja uma "estrela" pra você ter feito o que fez.
– COMO você sabe?
– Ela ligou para Siva uma noite, chorando, contando o que tinha acontecido. Ele não sabia o que fazer, pensou em voltar pra cá o mais rápido possível mas ela disse que não seria preciso, que só precisava de alguém pra conversar. Ela ficou mal, mas pelo que ela me disse, está superando. Fontes suficientes pra você?
– O que ela disse? - senti as lágrimas se acumulando nos meus olhos ao falar dela.
– Bom, ela está sozinha enquanto nós viajamos, ela é legal e sempre que eu posso tento anima-la, assim como os meninos fazem. Eles gostam dela, não tem como não gostar.
– Eu sinto falta dela, e realmente sinto muito por ela estar assim.
– Você não vai perguntar do Nathan?
– Eu não quero falar nisso... - limpei uma lágrima antes que ela escorresse. Me sentia ainda pior quando falavam nele, quando lembrava dele.
– Mas eu acho que é preciso, Bibs. Ele está mal, passou um bom tempo calado, quieto, na dele, quando realmente quis dizer que brigou com você e que tinha terminado sem muitos "porquês".
– Ele ficou mal?
– Claro! Ele gosta de você, ou gostava, não sei mais.
Não respondi. Não achava palavras suficientes para nada.
– Olha, eu sei que você não é uma má pessoa. - ele disse, sentando do meu lado e passando a mão pelos meus ombros. - Então eu só queria saber o por que de você ter feito essas coisas. Você é uma garota legal, afinal de contas.
– É só que eu não... Eu não consigo! - deixei que as lágrimas saíssem e eu não estava nem mais pensando no que Max acharia daquilo tudo. Não importava mais. - Eu gosto dele, realmente gosto mas nós nunca vamos dar certo. Ele é famoso e pode ter quem ele quiser, com certeza devem existir várias meninas atrás dele em cada show...
– Isso era um motivo para acabar com ele sem ter dito o porquê?
– Não, não era! - soluçava. - Mas se ficássemos juntos eu ia sofrer e eu não ia aguentar isso! Por isso eu estou indo embora e desde que decidi isso resolvi cortar laços com todo mundo que eu amava, eu não teria motivo pra voltar atrás e nem porque voltar pra cá.
– E agora você vai embora, deixando quem você gosta magoado e você está magoada também. Qual o propósito disso?
Não havia propósito, era a verdade. Minhas ideias, obviamente, eram completamente sem fundamento, e ir embora sem contato com ninguém e da forma que eu havia feito, só me davam um motivo a mais de dor e de arrependimento. Eu podia ser uma grande idiota.
– E o que VOCÊ quer que eu faça? - solucei enterrando a cabeça nas minhas mãe e deixando as lágrimas rolarem soltas como quisessem.
– Não é óbvio o que eu estou querendo dizer? Vá atrás de quem vale a pena pra você!
– Não sei se teria coragem de ir falar com Nathan, nem com a Lily... Coitada da Lily... O que eu fiz...
– Vai querer passar essas últimas horas sozinhas, secando um litro de whisky e chorando mais ainda, pelo que eu estou vendo?
– Não quero isso, mas Lily deve estar com Seev agora e...
– Siva não veio, teve problemas com o vôo. Vamos lá, Bianca, eu vou com você. Vai pegar um casaco, ta um pouco frio no corredor. - Max sorriu pra mim e me ajudou a levantar. Subi as escadas devagar pensando em cada palavra que eu podia dizer para concertar a situação, acho que nunca tinha feito isso antes. Acho que nunca tinha realmente me importado com alguém antes e impressionante como Max conseguiu mudar minha opinião. Ele era um péssimo piadista, mas era um ótimo amigo, se é que eu podia o chamar assim. Tirei um cardigã verde da mala sem muito cuidado e o vesti enquanto descia as escadas. O garoto me esperava do lado da porta, sorridente. Limpei mais uma lágrima que caia, fechei a porta e saímos em direção ao elevador.
– Você vai falar com quem primeiro? - perguntou Max, quebrando o gelo dentro do elevador.
– Não sei muito bem... Devo uma ótimo explicação para ambos...
– Você vai conseguir. Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar. - ele apertou uma das minhas mãos quando as portas se abriram. - Boa sorte, Bia. - deu um beijo em minha testa e saiu.
Estava parada no meio de um corredor vazio sem saber para que lado ir primeiro. Decidi seguir o que apareceu primeiro na minha mente. Olhos verdes, sobrancelhas grossas. Nathan.
Andei devagar, sentindo as pernas tremerem, as minhas mãos soarem. Enxuguei-as no short antes de tocar a campainha. E os segundos na frente da porta branca pareceram séculos, até eu ouvir passos e a porta se abriu. Um Nathan risonho apareceu na minha frente, com o cabelo coberto por um touca cinza. Como se algo o tivesse atingido, seu sorriso sumiu quando ele se deu conta de que era eu parada em sua frente. A recepção calorosa que eu havia imaginado em minha mente nos últimos minutos, se dissipou quando ele falou seco e grosso comigo.
– O que você ta fazendo aqui?
– Eu vim conversar... Será que a gente podia?
– Não, na verdade a gente não pode. Se me der licença, vou voltar para o meu chá agora. - virou de costas, prestes a fechar a porta, mas eu o segurei pelo braço antes que ele fizesse isso.
– Por favor! - pedi, com o restante de voz que ainda tinha, antes do choro me tomar por completo.
– Seja rápida.
– Você não vai me chamar para entrar? - perguntei de cabeça baixa.
– Não. O que tivermos para conversar lá dentro, podemos conversar aqui fora. - bateu a porta atrás dele. - Vamos, comece!
– Eu... Olha, deixa eu falar e depois você pode me responder se quiser, se não pode voltar para o seu chá no seu aconchegante apartamento, ok? - fez sinal positivo com a cabeça. Não conseguia olha-lo nos olhos, o que aumentava o meu nervosismo. - Eu queria pedir desculpas. Perdão, na verdade. Eu nunca deveria ter terminado com você e eu não sei o que eu tinha na cabeça, mas foi um dos maiores erros que eu já cometi. Eu só não... Queria te perder, no fim das contas. - me forcei a olha-lo, nos seus olhos eu podia ver raiva. Seus punhos estavam fechados. - Eu realmente sinto muito.
– Você sente muito? - bateu sua mão na parede que estava atrás dele. - Você acha mesmo que com uma desculpa dessas você vai conseguir alguma coisa? Acha que vai me ter de volta? Nossa, garota! - se afastou, dando alguns passos para o lado oposto que estava. - Olha, se você tivesse vindo aqui, batendo na minha porta há duas semanas atrás eu iria voltar correndo pra você como um cachorro! Só Deus sabe o quanto eu estava gostando de você mas eu percebi que isso ia doer mais do que uma faca me cortando, Bianca! Você é fria, sem coração!
– Não, Nathan! Você está errado! Você entendeu tudo errado! Por favor, me escuta! - corri em sua direção, tentando segurar seu braço, mas ele não deixou minha mão o tocar.
– Não encosta, Bianca! E claro que eu entendi tudo errado! Entendi o seu "Eu te amo" errado! Entendi VOCÊ errado! Você nunca sentia alguma coisa por mim, não é mesmo? - ele gritava. Se aproximou de mim, pegando no meu braço com força e me fazendo olha-lo nos olhos. - Não é isso, Bianca?! - não conseguia responder, nem respirar direito. O choro já havia tomado conta de tudo que eu era e nada mais saia a não ser tentativas dolorosas de respiração.
– Nathan? Está tudo bem? - escutei a porta do apartamento do garoto se abrir. De dentro saiu uma garota ruiva, com calça jeans, blusas de manga e cabelos bagunçados. Olhei para ela perplexa. Nathan soltou meu braço e saiu em direção a garota.
– Volta pra dentro, Mary. Eu já encontro você de novo. - fechando a porta ele se voltou para mim de novo.
– Você já está com outra, não é mesmo? - sorri triste quando a garota entrou novamente.
– Esperava que eu fosse ficar sozinho por quanto tempo? - riu alto.
– Nunca pensei que fosse ficar sozinho. - respondi quase em sussurro.
– E eu não fico. - piscou.
– Ela... Te faz feliz?
– Está me fazendo mais do que você fez. Ela não terminou comigo sem motivo algum, pelo contrário, ela ajudou a concertar o que não estava bem.
– Nunca quis te deixar assim...
– Olha, espero que você tenha dito tudo o que queria e escutado o que merecia, porque não estou disposto a ouvir mais nada. - balancei a cabeça em afirmação. Antes dele fechar a porta consegui forças para chamar seu nome uma última vez.
– Nathan! - corri logo atrás dele.
– O que foi agora?
– Seja... Feliz. - ele me olhou com o mesmo olhar de quando estava gritando comigo em uma parte do corredor, antes de cuspir as últimas palavras em cima de mim e bater a porta na minha cara.
– Desejo o mesmo.
Dei alguns passos para trás, deixando que minhas costas fossem de encontro com a parede. Permiti que eu deslizasse até o chão e continuei chorando, cada vez mais alto e a cada vez que eu tentava puxar uma quantidade maior de ar para os meus pulmões provocava um barulho que ecoava no corredor.
Minha visão estava embaçada depois de minutos sentada ali, chorando, e não reconheci a pessoa que me tirou do chão e me andou comigo até uma porta.
– Bianca? - reconheci a voz de Max quando fui colocada no sofá. Não consegui responder porque não saia mais nenhum som da minha boca. - Você pode me contar o que aconteceu quando puder, eu vou ligar para alguém. Você não está bem.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Capítulo 29

[/N.A: A música do capítilo é The Picture - Editors , dêem play quando eu avisar.]
Lilyan's POV
– Indo embora? - fui forçada a me virar. - Como assim indo embora? - Jullyan me olhava com um sorriso irônico no rosto.
– Embora. Isso mesmo. Veja com seus próprios olhos, eu que recebi isso essa manhã. - ela fez sinal para que eu me aproximasse até a sua mesa, onde no meio de tantos portas canetas havia um envelope grande e amarelo mostarda. De lá ela tirou uma folha de papel, com algo escrito em uma caligrafia amassada. Bianca.
– Caso você fique chocada demais para ler, permita-me. - puxou a folha que eu nem havia lido e começou a fazer isso, antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
– Nisso aqui - balançou-o na minha frente. - diz que a sua "amizade verdadeira" irá cumprir somente parte do estágio, indo embora antes de completar os três meses, ficando só mais três semanas na nossa cidade amada. Resumindo, ela vai embora e não contou pra você. - tomei o papel das mãos dela novamente para ler o que realmente tinha escrito. Bia me contaria se ela fosse embora, não contaria?
"Rebecca, espero que entenda o que eu vou lhe falar aqui. Em quase dois meses eu aproveitei muito o que o jornal pode oferecer e aprendi muito com isso e com certeza seguirei a carreira de jornalista. Adoraria passar os três meses estagiando aqui, mas por motivos pessoais, peço que me deixe ser dispensada quando o mês acabar, daqui a duas semanas. Não pude ir hoje pois estava resolvendo algumas coisas com a minha família, mas amanhã estarei indo para combinarmos tudo isso e se for o caso, rever o prazo.
Att, Bianca Fajardo."
Essa é a hora que alguém pularia de algum lugar e gritaria: "Pegadinha!"
Mas ninguém apareceu.
Em um dia ela toma uma decisão dessas e resolve não me contar nada. Em um dia ela some. Senti uma vontade enorme de gritar, ou de sair pelo corredor puxando o cabelo de Jullyan, até perceber que ela não tinha culpa. Algo me fez sentir com o coração apertado e fui tomada por um vontade horrível de chorar.
– Pela sua cara, você acreditou agora. Eu avisei. - ela piscou pra mim e puxou o papel novamente, colocando-o de volta no envelope amarelo e terminando de fazer o que quer que fosse no seu computador.
Sai com punhos fechados de raiva por ela nem se quer ter me contado e ter me deixado de fora. Tinha esse defeitos com a maioria das minhas amigas: Eu sempre me sentia altamente substituível, o que me fazia acreditar que simplesmente havia achado alguém melhor para conversar, o que pra mim, era motivo de tirar boas satisfações.
Enquanto bebia a água gelada do bebedouro, sentia que ela descia queimando mais do que se estive tomando whisky. Era a raiva e alguém ia receber uma visita não muito agradável hoje a noite, apesar da minha vontade de pegar o telefone e começar a xinga-la ali mesmo.
Bianca apenas tinha que me esclarecer certas coisas e me dar bons motivos, que me fizessem acreditar que depois disso, ela não era uma completa vadia.
xx
Sai mais tarde do que eu esperava do jornal, havia estado ocupada com algumas coisas, talvez para distrair a cabeça, ou simplesmente colocar as coisas em dia. Jullyan passara o dia olhando para mim com a mesma cara de nojo e dando risadinhas quando eu passava. Mais um motivo para eu nunca mais ter que olhar na cara dela.
O táxi me deixou em frente ao hotel e o vento que batia no meu rosto estava frio demais. Agradeci por estar em frente de casa e não passar muito tempo do lado de fora. O ambiente dentro do hotel estava acolhedor demais e cheio de pessoas conversando, indo em direção ao restaurante ou sentadas em alguns bancos espalhados pelo saguão. Passei direto por todos em direção a área dos elevadores, segurando o meu casaco de couro em um dos braços e apertando o botão do andar de Bianca, número 20. Antes das portas se fecharem, uma senhora gritou.
– Segura o elevador, por favor! - pediu. Estiquei uma das mãos, impedindo-o de fechar. - Obrigada! - respondeu. Era uma mulher que aparentava ter 60 anos, cabelos loiros e bem curtos, usava um blazer rosa pink com uma calça jeans, várias pulseiras douradas no braço enrugado assim como seu rosto. Ela me olhava com seus olhos azuis e um sorriso no rosto. - Você é a garotinha que namora com o rapaz da banda, não é mesmo?
– É. - eu sorri envergonhada. - Acho que sim...
– Eu ainda lembro da outra antes de você, a morena, bem baixinha. Faziam um belo casal, claro... Não que vocês não façam. - me senti desconfortável ao ouvir a voz agradável da senhora fazendo uma comparação estranha entre mim e Nareesha. Não sabia o que responder, afinal de contas, nunca soube.
– Obrigada... Eu acho... - mexi no casaco sobre meu braço, olhando para o chão. Senti o solavanco do elevador ao parar do vigésimo andar, onde eu ficaria. - Bom, eu fico por aqui! - sorri e olhei para a senhora.
– Eu moro nesse andar, a propósito. - sorriu. - Pensava que você morasse no vigésimo quinto.
– Eu vou passar no apartamento de uma amiga minha... - engoli um seco ao lembrar o motivo de estar naquele andar, cinco abaixo do meu.
– Ah, que adorável! - aquela mulher era tão simpática que chegava a ser estranho. - Eu vou por esse lado. - disse, indo na direção contrária do apartamento de Bianca. - Ora, nem me apresentei! Meu nome Margareth Lokwood, mas pode me chamar de Sra. Lokwood. Moro no 415, do outro lado. - apontou para a direita. - Qualquer coisa pode me procurar, querida.
– Lilyan Carter, prazer. Moro no 501.
– Eu sei! Sei de tudo que acontece por aqui. - apertou minha mão e a balançou com força. - Adoraria ficar conversando com a Senhorita, mas tenho que voltar para casa, longo dia! Até outra oportunidade! - gritou já tomando a direção oposta. Senhora esquisita aquela. Parecia as que viviam de observar a vida alheia nas calçadas em torno de minha casa no Brasil.
[Dêem play na música aqui e deixem repetindo!]
Tomei a direção da esquerda, procurando o apartamento de Bianca. 405. Comecei a sentir frio na barriga ao pensar no que poderia ouvir. Era sensível em relação a amizades e por causa disso eu estava ali, para entender o que estava acontecendo de errado. Nunca aguentei a possibilidade de uma ser substituída, já que eu me apegava demais com a maioria dos meus amigos. Droga. Tudo aquilo poderia ser evitado se não fosse assim.
Toquei a campainha uma vez e esperei em frente á porta. Ninguém apareceu. Vai ver ela estava no banho, era melhor tocar de novo. Ninguém. Coloquei minhas coisas em uma das cadeiras no corredor e voltei á porta, tentando espiar alguma coisa do lado de dentro pelo olho mágico, mas lembrei que ele só funciona quando alguém olha de dentro para fora. Esperei alguns minutos, cantarolando qualquer melodia que viesse a minha cabeça. A ideia genial de bater na porta me veio a cabeça nesse momento.
– Bianca? - bati. Nenhum sinal ou barulho. Eu sabia que ela estava lá, mas tinha me visto e não iria abrir a porta. Eu ia faze-la abrir. - Eu sei que você ta aí e eu não vou sair daqui até a gente conversar. - me afastei. Fui até o elevador duas ou três vez, só pelo fato de que esperar era chato e desesperador, por causa disso, alguma raiva bateu em mim e eu corri até sua porta, tropeçando em qualquer coisa e quase dando de cara com o chão.
– Olha, eu sei que você não é vaca o suficiente pra me deixar aqui esperando. - falei baixo. - Abre a porta, Bianca! - Silêncio. Peguei meu celular e liguei para a garota, se eu conseguisse ouvir alguma coisa, era porque ela estava em casa e eu iria faze-la abrir a porta.
O som do toque irritante e chato invadiu os meus ouvidos, me fazendo quase quebrar a porta para faze-lo parar. Achei mais prático finalizar a ligação. - Eu sabia que ela estava lá dentro! - disse pra mim mesma. Coloquei o celular em um dos bolsos de trás do short e comecei o que seria uma tentativa desesperadora de fazer a garota sair de dentro do apartamento. Esmurrei a porta com força uma vez, ficando impressionada com o barulho que ecoou no corredor que continuava vazio. Lembrei da conversa com Jullyan mais cedo, o que me fez sentir irritada e abandonada de novo. - Bianca! - esmurrei. - Eu sei que você está aí dentro! Não tenta me ignorar! - gritava. Pensei ter ouvido o barulho de pés na sala e parei, pensando que eu finalmente havia conseguido. Não sei quantos minutos tinha esperado em frente a porta após a última tentativa. Tomada pela raiva, acabei esmurrando a porta repetidas vezes. Meu único medo era que a porta caísse, pois depois de bater tantas vezes, o som que eu escutava era oco e seco. - Bi-an-ca sua vadia! Abre essa porta! Qual o seu problema! - meus punhos estavam doloridos e vermelhos e resolvi partir para tapas na porta de madeira branca. - Eu sei que você está aí dentro, caramba! Sei que está! Ouvi o celular tocar! - a essa altura eu já estava gritando de desespero por ser tão ignorada. - BIANCA ABRE A PORTA, AGORA! VOU SAIR ESPALHANDO PARA TODO MUNDO O QUANTO VOCÊ É UMA VADIA IMBECIL! ABRE! - o som do elevador se abrindo a poucos metros me fez parar e encarar a figura de cabelos pretos e longos que segurava uma sacola de papel marrom. Bianca. Acho agora eu tinha um problema.
– SERÁ QUE EU NÃO ABRI PORQUE NÃO ESTAVA EM CASA? QUAL O SEU PROBLEMA? VOCÊ FICOU LOUCA, LILYAN? - ela gritava indo até mim, puxando a chave de dentro do bolso e abrindo a porta.
Entrou e encostou a sacola em uma das cadeiras que ficava ao lado, quando voltou, se apoiou na entrada da porta, em minha frente e perguntou : O que você quer?
– Conversar.
– E é tão urgente que não podia esperar até amanhã? - antes de responder ela fez um sinal, fazendo isso por mim. - Ah claro, pelo seu escândalo é bem urgente. - disse cuspindo as palavras. - Entra.
No apartamento ainda tudo estava bem arrumado, mas olhando para cima, puder ver alguns pares da sua coleção de All Star espalhados pelo chão. Sentei em uma das cadeiras da mesa enquanto ela se jogou em um canto do sofá.
– O que você queria me falar?
– Fiquei sabendo de umas coisas hoje de manhã...
– E daí? - retrucou.
– E daí que você vai embora!
– Ah, isso... - disse como não se importasse. Olhou suas unhas e respondeu sem me olhar. - Vou, vou. Daqui há umas duas ou três semanas, tenho que ver com Rebecca alguns detalhes ainda.
– E você não me contou? Por que você vai embora?
– Não contei mesmo e nem pretendia fazer isso e não é da sua conta, querida. - sorriu ironicamente pra mim.
– Vem cá, o que foi que aconteceu? Eu te fiz alguma coisa ou...
– Você quer mesmo saber o que é, Lilyan?
– Quero! - ela se levantou no sofá e ficou calada até chegar onde eu estava.
– O problema é você, sua meiguice, seu jeito! Você é idiota, garota! Acorda pra vida! A única besteira que eu fiz nessa cidade foi ficar sua amiga!
– Por que você está fazendo isso? - meus olhos se encheram de lágrimas e eu me segurava para que nenhuma descesse em algum momento inesperado. Meu estômago parecia despencar com cada palavra que ela tinha dito.
– Porque eu não te aguento mais, caramba! É tão difícil entender isso? Estou te suportando há semanas mas você é INSUPORTÁVEL! - gritou. Não aguentaria ouvir mais nada a partir dali, me levantei e fui em direção a porta de cabeça baixa. Bianca me puxou pelo braço quando eu alcancei a maçaneta.
– Você não queria escutar, Lilyan?! Não queria!? Então escuta até o fim! Eu não quero mais falar com você, ouviu? Nem olha mais na minha cara, se você tiver coragem! Faz alguma coisa que presta e faz esse favor pra mim! Some da minha vida. - jogou meu braço para um lado e eu a encarei. Sentia meu rosto molhado por causa das lágrimas que já haviam caído a um tempo desde que começara a falar.
Respirei e andei até a saída, antes de bater a porta e sair dali, sem me virar somente disse: Adeus, Bia.
Senti como se alguma coisa apertasse meu coração. Peguei minhas coisas que ainda estavam intactas nas cadeiras do corredor e fui até o elevador que levaria até o meu andar. Não conseguia sentir as lágrimas descendo dos meus olhos, mas meu reflexo no espelho me mostrava que elas ainda continuavam caindo, manchando minhas bochechas com um pouco de rímel. Com a parada brusca quando chegamos ao meu andar, me senti enjoada. Procurei com uma das mãos a chave, com a outra tentava limpar os estragos que as lágrimas estavam fazendo. Quando puxei o chaveiro felpudo me senti feliz, não aguentava ficar mais em pé e os meus planos seriam deitar no sofá e dormir até a hora que o meu despertador nada amigável me permitisse. Joguei tudo que estava em minhas mãos no chão, em qualquer lugar. Tirei minha sandália e a joguei para o lugar mas longe que consegui, atingindo, infelizmente, um porta retrato de uma das mesas de centro. Tinha em mente que ir até lá e juntar todos os cacos de vidro espalhados pelo carpete me faria ficar bem e distraída, mas ao ver que foto era, cai de joelhos, chorando no chão, passando perto de me cortar com um pedaço pequeno de vidro. Lá estava eu e Bianca no dia em que fomos para a festa juntas, no dia que eu poderia dizer que nossa amizade tinha começado e era extremamente irônico que aquela foto agora estivesse caída no chão.
Soluçava muito quando levantei. Ao lembrar de tudo, eu chorava cada vez mais. Acabar uma amizade daquela forma era tão ruim ou igual a acabar um namoro. Depois de um tempo mais calma devido a quantidade de água com açúcar que tinha tomado, fui para o meu quarto e me joguei na cama, sem me preocupar com banhos demorados ou vento frio entrando pela janela quase aberta. Apenas deixei o sono vir, demorado, mas quando veio, caiu em mim tão leve quanto uma pluma, tendo o poder de me acalmar e me fazer esquecer, pelo menos por um momento, de tudo que era ruim e me poupando do que estava por vir.
Naquele momento eu não sabia, mas aquele era o início de uma época em que eu me sentiria mais sozinha do que nunca.
Bia's POV
Quando Lilyan bateu a porta ao sair, me senti mal por cada palavra que havia falado. Nada daquilo era verdade, odiei ter feito tudo aquilo, ela não merecia. Era uma das melhores pessoas que eu já havia conhecido, que me ajudou em tudo naquela cidade e eu estava estragando tudo. Mas era preciso. Aquilo era preciso. Não precisava de nada que me prendesse a Londres, queria sair dali o mais rápido possível. Lembrei de Nathan, da nossa conversa e da noite que antes tinha sido perfeita. Hoje eram lembranças a serem esquecidas e lágrimas a serem secadas, lágrimas aquelas que eu não conseguia fazerem parar de cair desde que vi os olhos verdes de Lily cheios de decepção. Ela nunca me perdoaria depois de tudo e nem eu mesma conseguiria fazer isso. Um dia quem sabe eu poderia simplesmente olhar para trás, voltar e pedir desculpas, dizer o quanto isso era um engano, mas não é pra trás que se olha. Para frente. Sempre.
Deitada no sofá, olhando o lado de fora, não conseguia parar de chorar, principalmente porque a partir de agora, eu teria que decidir o resto da minha vida e imaginando isso sem Lily para me ajudar era tão difícil, mas eu não poderia leva-la comigo. Estava me odiando e o sono também parecia ter brigado comigo, mas tem horas que, de tanto chorar, a cabeça pesa e os olhos se fecham automaticamente, mesmo em um sofá no meio da sala.
Acordei sem sono e o som ainda estava começando a aparecer. Subi até o meu quarto, que estava uma bagunça por sinal, e me direcionei ao banheiro. Meu rosto não podia estar pior. Inchado, vermelho, amassado. Desisti de olhar aquela imagem depressiva no espelho e fui para debaixo do chuveiro, onde a água morna estava me parecendo acolhedora o suficiente para ficar lá o tempo que for preciso. Tempo suficiente para pensar nas negociações mais tarde.
Senti o vento batendo contra o meu corpo molhado quando sai do banho, mesmo sem querer. O sol já havia aparecido e os primeiros sinais de movimento já apareciam nas ruas. Peguei as primeiras roupas que apareciam pela frente, sem o maior cuidado de combina-las. Fiz o máximo que pude para dar um ar de vida ao meu rosto com olheiras roxas em volta dos olhos, em seguida ajeitando o cabelo de qualquer jeito, sem um resultado muito bom.
Não tinha mais nenhuma paciência para ficar em casa, então desci para comer qualquer coisa, me contentando com ovos e um copo de chá. Voltei para pegar a bolsa e dou de cara com a senhora do 415 no elevador.
– Bom dia, querida. - sorriu.
– É. Dia. - respondi, tentando cortar o máximo de assunto possível. A fama daquela mulher corria solta pelas pessoas que moravam no hotel. Velha sinceridade, literalmente.
Sai praticamente correndo, fugindo do perfume de rosas da Sra. Lockwood. O táxi habitual já estava parado na frente do hotel.
– Bom dia! - ele disse. Forcei o melhor sorriso e sinalizei para ir em frente. Não houve conversar, nem risos, nem nada. Só uma eu, isolada no banco de trás com um par de fones de ouvido enormes.
Não percebi quando chegamos ao prédio do jornal, sendo tirada do transe pelo motorista. Me despedi com um aceno e estava decidida a ir em frente. Direto á sala de Rebecca.
– Ééér, bom dia. - disse para a mulher corpulenta na mesa que antecedia a sala de Rebecca.
– Srta. Fajardo, bom dia. Vejo que a Srta. resolveu dar as caras, não foi? Que coisa boa. - falava sem tirar os olhos do computador com adesivos de gatos. - Pode entrar, a Sra. Foster está esperando por você. - Me dirigi a sala e abri a porta devagar. O cheiro abafado do papel estava em toda parte.
– Bom dia, Bianca! - disse Rebecca, colocando seus cabelos loiros para trás e apertando a minha mão. - Sente-se!
– Obrigada! - respondi com um entusiasmo anormal.
– Então... - fez sinal para que eu prosseguisse no assunto.
– Eu vim para tratar do assunto que eu já mencionei no bilhete que mandei ontem de manhã, espero que ele tenha chegado em boas mãos.
– Sim, chegou. Mas uma cosia que eu não entendo, Bianca, é como uma garota com tanto futuro nesse ramo, pede para sair de um estágio que milhares de pessoas tentam conseguir a cada ano.
– São problemas, Srta. Foster, problemas que fugiram e fogem do meu alcance. São... Familiares... - nunca poderia dizer qual era o motivo de realmente estar partindo, acho que eu mesmo não sabia, mas cortar vínculos e sair o mais rápido possível, parecia a coisa certa a fazer. Mas eu era relativamente burra e teimosa.
– Entendo...
– Peço que a Srta. entenda que eu sou realmente grata por todas as oportunidades que eu tive, que eu nunca vou me esquecer das coisas que eu aprendi aqui, vão ser extremamente uteis se eu for para esse ramo.
– E eu ficarei feliz de lhe dar uma boa recomendação, você tem um ótimo futuro pela frente.
– Ficarei feliz em voltar aqui de novo para isso. - tentei sorrir.
Passamos quase uma hora dentro de sua sala discutindo coisas como algumas documentações, referências e o término do estágio, que ficou com duração de somente mais duas semanas, tempo suficiente para me programar. Nesse tempo, teria a sorte de não mais ver os olhos verdes de Nathan, o que significava que não haveria como voltar a trás da atitude que eu tomei anteriormente com o garoto. Sua presença, seu olhar, poderia me fazer voltar a trás, poderia, mas eu fugiria disso. Pensava em Lilyan também, fugir dela seria mais difícil e deixa-la sem uma despedida descente e sincera seria torturante, como estava sendo agora, ao pensar nisso.
Demos as mãos em um comprimento formal, seguidos por sorrisos forçados saídos de nossos lábios. Ao alcançar a maçaneta, escutei sua voz rouca me fazendo uma última pergunta.
– É isso mesmo que você quer? - não havia felicidade em sua voz, mas uma seriedade incomum. Realmente pensei em voltar, queimar todos aqueles papeis que havia assinado, pedir desculpas, recomeçar, ficar. Mas não o fiz. Balancei minha cabeça em sinal negativo e recoloquei os óculos no rosto antes de responder.
– Sim, é isso. Partir.