sábado, 22 de dezembro de 2012

Capítulo 30


[/N.a: A música do capítulo é Heart of Stone - Iko, deixem carregando e dêem play quando eu avisar.]
Duas semanas voaram. Um pouco mais de 24 horas para voltar pra casa agora.
Levava o restante de uma torta e uma garrafa de um whisky barato nas mãos que eu havia ganhando. Por algum motivo, as garotas do jornal resolveram fazer uma "festa" de despedida no final do expediente. Ninguém me contou quem era a responsável por aquela tentativa de demonstração de amizade e compaixão, no final das contas só me mandaram sentar e relaxar. Na minha opinião, não havia tantas coisas assim para serem comemoradas, mas fiquei feliz em pelo menos, tem ganhado algo beber e esquecer de algumas coisas das últimas semanas que passaram. Lilyan continuava sem falar comigo e acabara cumprindo o que eu "pedi" para fazer no dia em que eu decidi que seria melhor ela se afastar de mim, que era não olhar mais na minha cara. Aparentemente eu estava ficando boa em afastar as pessoas e nem a velha bisbilhoteira do meu andar apareceu para me entregar tortas ou biscoitos. Minhas tarde estavam completamente vazias, literalmente, sem besteiras para beliscar. Uma pessoa estava passando muito pela minha cabeça e seus olhos também. Nathan. Lembrava dele a cada segundo que o relógio batia, a cada vez que eu entrava naquele hotel e todas as vezes que andava pelo seu corredor, o que eu não fazia mais. Me peguei chorando por ele algumas vezes quando estava sozinha, praticamente todo o tempo. Me perguntava, ás vezes, o que eu tinha na cabeça, mas lembrava do motivo pelo qual eu havia feito tudo e me sentia obrigada a não fazer mais aquilo, chorar não mudaria nada, nunca mudou.
Estava difícil entrar no hotel nessa noite. Um grupo gigantesco com mais de 50 garotas gritando estavam na frente do hotel e eu me perguntando o que elas faziam ali, pois pelos boatos que eu ouvi, os meninos só chegariam no domingo, quando eu estaria bem longe dali, evitando mais dor ao ver certos olhos verdes, por sorte. Me espremi entre uma e outra, pedindo licença com toda a paciência que eu tinha no meio da multidão. O saguão estava bem menos cheio. Alguns seguranças faziam guarda nas portas e as pessoas saiam do elevador em direção ao restaurante para a "Noite de música ao vivo.". Basicamente era um cara tocando piano.
– Hey, Hollie. - cumprimentei a recepcionista e coloquei as coisas que estavam nas minhas mãos no balcão por um segundo.
– Boa noite Srta. Fajardo, precisa de alguma coisa?
– Err... O que esse pessoal faz aí na frente? Os meninos só iam chegar no domingo, não?
– Iam. - respondeu sem tirar os olhos da tela de seu computador. - Alguns deles mudaram de planos e estão voltando hoje, pelo que percebemos, algumas fãs descobriram e vieram espera-los aqui. Mas não se preocupe, o transtorno nunca dura muito tempo, eles entrarão pelos fundos.
Mudaram de planos. Será que eu poderia ser mais azarada?
– Você sabe me dizer se... Hm... Quem vai chegar hoje?
– A Srta. quer saber se o garoto Sykes vai chegar, não é mesmo? - olhou para mim por cima de seus óculos com armações escuras e sorriu.
– Nathan? - eu ri. - Não, claro que não! Por que eu iria querer saber dele? Não quero saber de...
– Sim, ele vai chegar hoje. - me interrompeu e voltou sua atenção para o que estava fazendo. E sim, eu poderia ser tão azarada a esse ponto.
– Oh, ah, ok. Não faz diferença. - peguei minhas coisas no balcão mas a memória do que eu realmente tinha ido até ali, falar com Hollie, me veio a cabeça novamente. - Hollie você pode mandar algumas caixas para o meu quarto?
– Caixas, srta.?
– Sim, caixas. Tem algumas coisas ainda que eu tenho que embalar lá em cima e eu preciso delas, o mais rápido que você puder, por favor.
– Claro! Assim que pudermos mandamos as caixas para o seu quarto. - sorriu pra mim e voltou sua atenção para a porta, onde um dos seguranças tinha impedido de uma menina entrar correndo.
A caminho dos corredores do elevador, tudo estava mais calmo e vazio. Uma garota morena estava sentada em um dos bancos, olhando distraída para os lados e constantemente para o relógio. Ela não morava lá, mas eu sabia que conhecia aquele rosto de algum lugar, porém a chegada do elevador me faz parar de tentar lembrar de onde. Minhas costas doíam com o peso da minha bolsa, além de a garrafa de whisky pesar em um dos meus braços. Os segundos que levaram até parar no meu andar foram torturantes para a minha coluna. Ao chegar no apertamento, coloquei as coisas que estavam nos braços em cima da mesa da sala, joguei a bolsa em qualquer lugar e atirei-me no sofá pensando em absolutamente nada. Ou em tudo. Ver todo aquele lugar arrumado, com a maioria das minhas coisas em malas ou em caixas podia até doer, mas doía ainda mais em saber que havia feito aquilo tudo sozinha. Ficar sozinha nos últimos dias tinha sido difícil, ficar sem Lily tinha sido difícil, mas eu só tinha mais um dia e meio, nada que eu não pudesse suportar.
Mentira.
Precisei ocupar a minha cabeça e ataquei o restante da torta que estava em cima da mesa, levando-a para frente de uma das janelas que cobriam quase toda a parede. Estava jantando torta com uma das visões mais lindas da cidade e sozinha. Completamente sozinha. Comer torta não estava me ajudando. Chantili podia ser mais depressivo do que chocolate.
Subi as escadas procurando o que fazer enquanto não mandavam as caixas pra cá. Organizei os meus All Star por cor, dobrei minhas roupas de novo, mudei de local as minhas malas, limpei os pinceis de maquiagem que eu mal havia usado e cheguei até a trocar de roupa, colocando um short antigo e uma blusa de mangas branca. E nada de chegarem as caixas e já haviam se passado uma hora e meia. Desci apressada e se pudesse sair fumaça da minha cabeça por causa da raiva, com certeza sairia. Cheguei a pegar o telefone para ligar para a recepção, mas felizmente a campainha soou. Abre uma porta de uma vez e falei:
– Finalmente! Se isso for depressa então eu... - me interrompi ao ver o garoto careca na minha frente, surpresa. - Max? O que você ta fazendo aqui? Eu pensei que era alguém trazendo as...
– Caixas? Bom, elas estão aqui! Surpresa? Sou muito melhor que o carregador para subir com um monte de papelão. - abriu um sorriso e levantou algumas caixas empilhadas que trazia de trás dele. - Eu estava passando pela recepção e Hollie pediu gentilmente que eu as trouxesse aqui. - estendeu as caixas pra mim e eu peguei, jogando do lado da porta.
– Por acaso você não quer entrar e tomar alguma coisa? Em agradecimento por trazer as caixas, você sabe, não precisava.
– Claro, obrigada! - ele se sentou no sofá e olhou o apartamento.
– Está um pouco bagunçado, não repara. Bom - eu disse, indo até a garrafa de whisky e tirando-o da sacola de papel que estava. - Eu só tenho isso para oferecer no momento, meus chás acabaram.
– Garanto que nada é melhor que um whisky. - servi em dois copos e enquanto o garoto estava no sofá bebendo, me sentei no chão e espalhei as caixas de modo a pegar tudo que precisava e embalar com papel bolha.
– Você não quer ajuda? - perguntou.
– Não precisa, Max. Obrigada! - sorri e continuei embalando uma parte das coisas antes de guarda-las na caixa.
[Deêm play na música e deixem tocando até o final]
– Vem cá, você tem realmente problemas em aceitar ajuda das pessoas? - o olhei, surpresa. Realmente não esperava que ele viesse com essa. Não esperava que NINGUÉM viesse com uma dessas.
– Quando ela é uma estrela, sim, eu tenho.
– E de deixar as pessoas por perto também, não é? - senti minhas mãos gelarem quando ele mencionou aquilo. Provava que ele não estava ali só para beber ou levar algumas caixas. Ele sabia de alguma coisa. Apenas balancei minha cabeça em sinal negativo.
– Não sei do que você está falando.
– Claro que sabe, Bianca. Eu sei de muita coisa.
– Olha Max, com certeza você NÃO sabe.
– Não esqueça que quem você magoou foi um dos meus melhores amigos e a namorada de um deles. Então...
– Eu já disse que não sei do que você está falando! - tomei um gole do whisky tentando conter tudo que poderia sair.
– Você não precisa esconder pra mim, ao contrário das pessoas que você afastou por conta própria, eu estou aqui disposto a conversar e lhe ajudar, quem sabe.
– O que você sabe?
– De tudo. E não creio que Lilyan seja uma "estrela" pra você ter feito o que fez.
– COMO você sabe?
– Ela ligou para Siva uma noite, chorando, contando o que tinha acontecido. Ele não sabia o que fazer, pensou em voltar pra cá o mais rápido possível mas ela disse que não seria preciso, que só precisava de alguém pra conversar. Ela ficou mal, mas pelo que ela me disse, está superando. Fontes suficientes pra você?
– O que ela disse? - senti as lágrimas se acumulando nos meus olhos ao falar dela.
– Bom, ela está sozinha enquanto nós viajamos, ela é legal e sempre que eu posso tento anima-la, assim como os meninos fazem. Eles gostam dela, não tem como não gostar.
– Eu sinto falta dela, e realmente sinto muito por ela estar assim.
– Você não vai perguntar do Nathan?
– Eu não quero falar nisso... - limpei uma lágrima antes que ela escorresse. Me sentia ainda pior quando falavam nele, quando lembrava dele.
– Mas eu acho que é preciso, Bibs. Ele está mal, passou um bom tempo calado, quieto, na dele, quando realmente quis dizer que brigou com você e que tinha terminado sem muitos "porquês".
– Ele ficou mal?
– Claro! Ele gosta de você, ou gostava, não sei mais.
Não respondi. Não achava palavras suficientes para nada.
– Olha, eu sei que você não é uma má pessoa. - ele disse, sentando do meu lado e passando a mão pelos meus ombros. - Então eu só queria saber o por que de você ter feito essas coisas. Você é uma garota legal, afinal de contas.
– É só que eu não... Eu não consigo! - deixei que as lágrimas saíssem e eu não estava nem mais pensando no que Max acharia daquilo tudo. Não importava mais. - Eu gosto dele, realmente gosto mas nós nunca vamos dar certo. Ele é famoso e pode ter quem ele quiser, com certeza devem existir várias meninas atrás dele em cada show...
– Isso era um motivo para acabar com ele sem ter dito o porquê?
– Não, não era! - soluçava. - Mas se ficássemos juntos eu ia sofrer e eu não ia aguentar isso! Por isso eu estou indo embora e desde que decidi isso resolvi cortar laços com todo mundo que eu amava, eu não teria motivo pra voltar atrás e nem porque voltar pra cá.
– E agora você vai embora, deixando quem você gosta magoado e você está magoada também. Qual o propósito disso?
Não havia propósito, era a verdade. Minhas ideias, obviamente, eram completamente sem fundamento, e ir embora sem contato com ninguém e da forma que eu havia feito, só me davam um motivo a mais de dor e de arrependimento. Eu podia ser uma grande idiota.
– E o que VOCÊ quer que eu faça? - solucei enterrando a cabeça nas minhas mãe e deixando as lágrimas rolarem soltas como quisessem.
– Não é óbvio o que eu estou querendo dizer? Vá atrás de quem vale a pena pra você!
– Não sei se teria coragem de ir falar com Nathan, nem com a Lily... Coitada da Lily... O que eu fiz...
– Vai querer passar essas últimas horas sozinhas, secando um litro de whisky e chorando mais ainda, pelo que eu estou vendo?
– Não quero isso, mas Lily deve estar com Seev agora e...
– Siva não veio, teve problemas com o vôo. Vamos lá, Bianca, eu vou com você. Vai pegar um casaco, ta um pouco frio no corredor. - Max sorriu pra mim e me ajudou a levantar. Subi as escadas devagar pensando em cada palavra que eu podia dizer para concertar a situação, acho que nunca tinha feito isso antes. Acho que nunca tinha realmente me importado com alguém antes e impressionante como Max conseguiu mudar minha opinião. Ele era um péssimo piadista, mas era um ótimo amigo, se é que eu podia o chamar assim. Tirei um cardigã verde da mala sem muito cuidado e o vesti enquanto descia as escadas. O garoto me esperava do lado da porta, sorridente. Limpei mais uma lágrima que caia, fechei a porta e saímos em direção ao elevador.
– Você vai falar com quem primeiro? - perguntou Max, quebrando o gelo dentro do elevador.
– Não sei muito bem... Devo uma ótimo explicação para ambos...
– Você vai conseguir. Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar. - ele apertou uma das minhas mãos quando as portas se abriram. - Boa sorte, Bia. - deu um beijo em minha testa e saiu.
Estava parada no meio de um corredor vazio sem saber para que lado ir primeiro. Decidi seguir o que apareceu primeiro na minha mente. Olhos verdes, sobrancelhas grossas. Nathan.
Andei devagar, sentindo as pernas tremerem, as minhas mãos soarem. Enxuguei-as no short antes de tocar a campainha. E os segundos na frente da porta branca pareceram séculos, até eu ouvir passos e a porta se abriu. Um Nathan risonho apareceu na minha frente, com o cabelo coberto por um touca cinza. Como se algo o tivesse atingido, seu sorriso sumiu quando ele se deu conta de que era eu parada em sua frente. A recepção calorosa que eu havia imaginado em minha mente nos últimos minutos, se dissipou quando ele falou seco e grosso comigo.
– O que você ta fazendo aqui?
– Eu vim conversar... Será que a gente podia?
– Não, na verdade a gente não pode. Se me der licença, vou voltar para o meu chá agora. - virou de costas, prestes a fechar a porta, mas eu o segurei pelo braço antes que ele fizesse isso.
– Por favor! - pedi, com o restante de voz que ainda tinha, antes do choro me tomar por completo.
– Seja rápida.
– Você não vai me chamar para entrar? - perguntei de cabeça baixa.
– Não. O que tivermos para conversar lá dentro, podemos conversar aqui fora. - bateu a porta atrás dele. - Vamos, comece!
– Eu... Olha, deixa eu falar e depois você pode me responder se quiser, se não pode voltar para o seu chá no seu aconchegante apartamento, ok? - fez sinal positivo com a cabeça. Não conseguia olha-lo nos olhos, o que aumentava o meu nervosismo. - Eu queria pedir desculpas. Perdão, na verdade. Eu nunca deveria ter terminado com você e eu não sei o que eu tinha na cabeça, mas foi um dos maiores erros que eu já cometi. Eu só não... Queria te perder, no fim das contas. - me forcei a olha-lo, nos seus olhos eu podia ver raiva. Seus punhos estavam fechados. - Eu realmente sinto muito.
– Você sente muito? - bateu sua mão na parede que estava atrás dele. - Você acha mesmo que com uma desculpa dessas você vai conseguir alguma coisa? Acha que vai me ter de volta? Nossa, garota! - se afastou, dando alguns passos para o lado oposto que estava. - Olha, se você tivesse vindo aqui, batendo na minha porta há duas semanas atrás eu iria voltar correndo pra você como um cachorro! Só Deus sabe o quanto eu estava gostando de você mas eu percebi que isso ia doer mais do que uma faca me cortando, Bianca! Você é fria, sem coração!
– Não, Nathan! Você está errado! Você entendeu tudo errado! Por favor, me escuta! - corri em sua direção, tentando segurar seu braço, mas ele não deixou minha mão o tocar.
– Não encosta, Bianca! E claro que eu entendi tudo errado! Entendi o seu "Eu te amo" errado! Entendi VOCÊ errado! Você nunca sentia alguma coisa por mim, não é mesmo? - ele gritava. Se aproximou de mim, pegando no meu braço com força e me fazendo olha-lo nos olhos. - Não é isso, Bianca?! - não conseguia responder, nem respirar direito. O choro já havia tomado conta de tudo que eu era e nada mais saia a não ser tentativas dolorosas de respiração.
– Nathan? Está tudo bem? - escutei a porta do apartamento do garoto se abrir. De dentro saiu uma garota ruiva, com calça jeans, blusas de manga e cabelos bagunçados. Olhei para ela perplexa. Nathan soltou meu braço e saiu em direção a garota.
– Volta pra dentro, Mary. Eu já encontro você de novo. - fechando a porta ele se voltou para mim de novo.
– Você já está com outra, não é mesmo? - sorri triste quando a garota entrou novamente.
– Esperava que eu fosse ficar sozinho por quanto tempo? - riu alto.
– Nunca pensei que fosse ficar sozinho. - respondi quase em sussurro.
– E eu não fico. - piscou.
– Ela... Te faz feliz?
– Está me fazendo mais do que você fez. Ela não terminou comigo sem motivo algum, pelo contrário, ela ajudou a concertar o que não estava bem.
– Nunca quis te deixar assim...
– Olha, espero que você tenha dito tudo o que queria e escutado o que merecia, porque não estou disposto a ouvir mais nada. - balancei a cabeça em afirmação. Antes dele fechar a porta consegui forças para chamar seu nome uma última vez.
– Nathan! - corri logo atrás dele.
– O que foi agora?
– Seja... Feliz. - ele me olhou com o mesmo olhar de quando estava gritando comigo em uma parte do corredor, antes de cuspir as últimas palavras em cima de mim e bater a porta na minha cara.
– Desejo o mesmo.
Dei alguns passos para trás, deixando que minhas costas fossem de encontro com a parede. Permiti que eu deslizasse até o chão e continuei chorando, cada vez mais alto e a cada vez que eu tentava puxar uma quantidade maior de ar para os meus pulmões provocava um barulho que ecoava no corredor.
Minha visão estava embaçada depois de minutos sentada ali, chorando, e não reconheci a pessoa que me tirou do chão e me andou comigo até uma porta.
– Bianca? - reconheci a voz de Max quando fui colocada no sofá. Não consegui responder porque não saia mais nenhum som da minha boca. - Você pode me contar o que aconteceu quando puder, eu vou ligar para alguém. Você não está bem.

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