Lilyan’s POV
– Tom?- eu perguntei.
– ACERTOU!- ele riu e sentou-se do meu lado.
– O que você ta fazendo aqui? Você corre de manhã também?
– Correr de manhã? – ele deu uma daquelas risadas exageradas dele, o que me fez rir também. – Só se for atrás de você pra te chamar pra tomar um sorvete. – ele me olhou e deu um sorriso, depois voltou o olhar para o céu. – Acordou um pouco quente hoje, não acha?
– Sorvete? Adoraria um agora! Amo sorvete!
– Sabia que você ia gostar!
– Eu não me lembro de ter te dito isso, Thomas.
– E não disse. Eu ouvi o Siva falar. – ela fez uma estranha cara de paisagem ao falar no Siva... – Vamos então?
– Claro! Vou só passar no hotel pra pegar dinheiro e...
– Dinheiro? Não, não, não. Meu convite, minha conta.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Então ta né... – Fomos andando pela rua e perguntei se a sorveteria ficava longe dali, ele me disse que não era, que ficava a uma ou duas ruas dali. Acho que não passou nem dez minutos e já estávamos a um lugar com aparência antiga. Com algumas mesas vermelhas e banquinhos. Lá dentro também havia mesas, e um freezer alongado onde estavam os sorvetes. No balcão estava um senhor com um avental listrado, ele tinha um grande bigode branco e usava uma boina. Decidimos ficar do lado de fora, debaixo de uma árvore onde fazia uma sombra gostosa e poderíamos fugir do sol forte e quente.
O senhor veio até nós assim que nos sentamos, e perguntou gentilmente qual seria o nosso pedido. Percebi que Tom segurou o riso devido ao leve sotaque italiano do homem parado ao nosso lado, e eu quase caí na gargalhada ao observar a sua expressão.
– Dois sorvetes de maracujá com castanhas por cima, por favor. - Tom pediu educadamente, e eu senti o meu queixo cair, enquanto o senhor se afastava da nossa mesa.
– Tom? - Perguntei, quando finalmente encontrei a minha voz. - Como é que... - Comecei outra pergunta, mas ele me interrompeu.
– Como é que eu sei que esse é o sorvete que você mais gosta? - Tom completou a pergunta e eu assenti com a cabeça. - Eu ouvi o Siva falar. - Ele repetiu e deixou um riso fraco escapar dos lábios.
– Você é mais observador do que eu pensei. - Ri, e a expressão que sempre aparecia no rosto de Thomas quando o nome de Siva era mencionado pareceu desaparecer com a minha risada.
– Eu só observo o que me interessa. - Ele piscou para mim, retribuindo o riso. Eu precisei de alguns segundos para me perguntar se aquilo fora apenas uma brincadeira, ou se ele falava sério. - Falando no Siva... - Tom praticamente engasgou ao pronunciar o nome do amigo, tirando-me dos meus devaneios. - Como é que as coisas estão com ele? - O dono dos caninos nos quais eu sempre fui apaixonada completou, sua voz ficando mais fraca a cada palavra.
– Com ele? - Repeti, pretendendo ter certeza de que Tom queria mesmo saber. O assunto parecia o incomodar. No entanto, ele assentiu devagar. - Está tudo bem. - Me permiti dar um leve sorriso ao constatar que, de fato, tudo estava bem. - Não posso dizer que nós estamos namorando, porque não estamos, mas as coisas estão indo bem.
– Ele está te tratando bem, então? - Tom se forçou a dar um sorriso simpático.
– Muito bem. - Afirmei, feliz. A expressão no rosto de Thomas piorava a cada sorriso que eu dava. - E as coisas com a Kelsey? Como estão? - Emendei depressa, procurando mudar de assunto o mais rápido possível. Eu não sabia se aquilo melhoraria ou pioraria a situação, mas eu precisava tentar.
– Com a Kelsey? - Tom repetiu, dando um suspiro longo e pesado. - Não tão bem quanto eu gostaria.
– Você se incomodaria de me contar o que é que te entristece? - Perguntei com a voz fraca. O meu coração doía de vê-lo daquele jeito.
Tom pareceu hesitar antes de responder, o que deu tempo para o senhor italiano chegar com os nossos sorvetes. Ele agradeceu e colocou uma das taças pingando cobertura à minha frente.
– As coisas estão cada vez piores. - Tom começou, dando a primeira colherada no sorvete. - O nosso relacionamento nunca foi um exemplo, e tudo o que ela vem fazendo está me distanciando ainda mais. - Ele levantou os olhos, deixando-os repousar nos meus. Sorri de leve, incentivando-o a continuar. - Eu ando preferindo ficar sozinho do que na companhia dela. É como se eu soubesse que ela não me ama. - Tom respirou fundo e pegou mais um pouco de sorvete.
– Então por que é que você ainda sustenta esse relacionamento? - Falei baixinho, imitando-o e afundando a colher no sorvete.
– Eu não sei. - Tom me olhou mais uma vez e riu fraco. - Talvez eu tenha me acostumado.
– Então trate de se desacostumar. - Brinquei, arrancando um sorriso dos seus lábios. - Eu vou te ajudar, independente da decisão que você tome.
– Vai? - Ele me lançou um olhar curioso.
– Sim. - Sorri, percebendo que a sua expressão relaxava à medida que as minhas palavras o alcançavam. - Se você terminar o namoro com a Kelsey, eu prometo te dar colo, assistir a filmes românticos com você e te deixar chorar enquanto eu te faço cafuné. - Percebi que os olhos dele ganharam um brilho desconhecido, então continuei. - Se você quiser continuar com ela, eu prometo ajudar vocês a se reconciliarem e te dar algumas dicas do que fazer.
– Obrigado, Lily. - Tom abriu um sorriso que iluminou toda a sorveteria, ou talvez fosse só impressão minha. Ele pousou a sua mão sobre a minha e a apertou, desenhando círculos imaginários com o polegar sobre ela. – Mas não sei se quero prolongar mais isso...
– Não há de quê. - Respondi, retribuindo o sorriso. - Eu vou ser a sua força. - Falei com a voz fraquinha, me arriscando a cantar o pedacinho da música que eles fizeram para as fãs, mas que naquele momento me pareceu autoria das fãs, feita para eles.
Continuamos conversando até acabar o sorvete e até pensamos em pedir outro, mas a hora e a chegada nada discreta e agradável de alguém atrapalharam alguns dos planos.
Kelsey.
– Thomas? – uma voz esganiçada e alta ecoou em nossos ouvidos. Pela expressão que eu vi no rosto dele, acho que também achava que aquela companhia não era nem um pouco agradável. Ele não respondeu, mas soltou minha mão rapidamente.
–THOMAS? – ela insistiu falando cada vez mais alto e agora estava do lado da nossa mesa.
– Kelsey? O que vocês está fazendo aqui?
– Eu que pergunto! O que VOCÊ está fazendo aqui?
–Eu vim tomar sorvete com a Lily.
– Ah, mas é claro! Com ELA.
– Ela tem nome, Kelsey! Qual o seu problema? – ele se levantou e ficou cara a cara com a garota.
– QUAL O MEU PROBLEMA? NÃO SOU EU QUE TENHO PROBLEMAS AQUI, É VOCÊ! – a essa altura da conversa ela já falava tão alto que as pessoas que estavam por perto prestavam atenção naquela confusão toda.
– Você deveria falar mais baixo.
– EU FALO NA ALTURA QUE EU QUISER!
– Ah é? Fala na altura que quiser? – ele pegou a carteira e deixou o dinheiro dos nossos sorvetes em cima da mesa. Eu nunca o vi tão irritado. – Então você pode ficar aqui sozinha também. – ele saiu e não falou comigo, eu entendi que ele estava de cabeça quente. Aquela cena tinha sido ridícula e mesmo sabendo que Thomas não ia voltar, ela continuou berrando parada no mesmo local, observando-o ir embora. Eu não achei certa a maneira como ela o tratou, pra mim ele era uma das melhores pessoas do mundo, e não merecia ser tratado como um cachorro. Decidi fazer alguma coisa. Decisão certa. Ou não.
– Você não devia fazer isso com ele. Não vê como isso o deixa mal?
– Quem é você pra me dizer isso? Eu sei MUITO BEM como cuidar do MEU namorado, coisinha!
– A ‘coisinha’ tem nome...
– Claro que tem! É intrometida! E você, deveria cuidar do que é seu! Porque eu sei muito bem cuidar do MEU namorado.
– Mas você não ta vendo o namorado perfeito que você tem?
– EU SEI O NAMORADO QUE EU TENHO! VAI CUIDAR DA SUA VIDA! VAI CUIDAR DO SIVA QUE É MELHOR PRA SUA VIDA, E NUNCA MAIS CHEGA PERTO DO MEU NAMORADO! – ele cuspiu as palavras enquanto colocava o dedo na minha cara.
– Tira esse seu dedo sujo da minha cara.
– VOCÊ QUER QUE EU TE CALE A BOA, OU VAI CALAR POR SI MESMA?
– Não vou ser eu a calar a minha boca aqui. Você é uma idiota mesmo, não sabe o garoto que tem. Dois anos de convivência com ele não te ensinaram como tratar alguém com amor? Poxa vida, imagina quantas garotas que queriam estar no seu lugar!
– Eu trato todo mundo do jeito que merecem, você por exemplo, não entrou na minha vida não faz uma semana, e eu vejo que não merece o meu respeito.
– Nunca pedi pra entrar na sua vida, e não quero esse seu ‘respeito’ duvidoso.
– EU VOU EMBORA DAQUI, NÃO TENHO NADA PRA FALAR COM VOCÊ. – ela virou as costas e saiu. Percebeu que tinha alguém olhando e gritou: TA OLHANDO O QUE?
Eu peguei o dinheiro da mesa e fui onde o senhor dono da sorveteria estava.
– Obrigada pelo sorvete – eu disse entregando o dinheiro – e desculpe por isso tudo Senhor...
– Giuseppe.
– Desculpe pela confusão Senhor Giuseppe...
– Não tem problema criança... Gostei do modo que defendeu seu amigo. Permita-me a intromissão, mas eu realmente acho que a loirinha não o merece, e com certeza a senhorita preencheria um lugar muito maior que ela.
– Nossa... Eeer... – eu dei um sorriso tímido, porque não sabia muito bem o que responder. – Obrigada?
– De nada. E se precisar um dia de conselhos de um velho italiano, pode passar por aqui. Não é muito, mas acompanhado de um bom sorvete se torna muito agradável.
– Obrigada, de verdade. E passarei. Até outra hora Senhor Giuseppe! – saí da sorveteria e corri toda a extensão do parque mais uma vez, não sei por que, nem como, mas comecei a chorar enquanto corria. Nunca fui o tipo de pessoa que sai totalmente bem de uma discussão e aquela realmente tinha me deixado um pouco mal. Estava chorando muito quando acabei esbarrando em alguém que vinha na direção oposta.
Graças a Deus era Alex.
– Lilyan? – eu me abaixei cansada e ele me levantou. Olhando para o meu rosto ele percebeu que eu estava chorando. – O que foi que aconteceu?! – eu o abracei como se nós fossemos amigos há anos, mas como ele disse que queria ser meu amigo, então achei que não seria inapropriado.
– Ai Alex, eu não to muito bem, nunca saio bem depois de um bate boca... Você... pode passar lá no apartamento mais tarde? Eu te conto tudo o que aconteceu... – eu enxuguei o rosto e o olhei. Percebi que ele estava preocupado comigo.
– Bate boca? Você brigou com o Siva? E claro que passo!
– Não, não foi nada com ele... Mais tarde eu te conto... – o abracei e me despedi.
Cheguei no hotel, peguei minha chave e fui direto tomar um banho. Sequei o cabelo e fiz uma maquiagem que tirasse a vermelhidão do choro do meu rosto. Como estava qunte lá fora, peguei um vestido curto e larguinho sem mangas rosa com várias flores, e uma sandália com franjas Escrevi um bilhete pra colocar debaixo da porta do Tom junto com o troco da sorveteria.
“Espero que apesar do escândalo da sua namorada, você tenha um bom dia.
Nos falamos depois. Obrigada pelo sortvete.
XX, Lilyan.”
“Está ótimo.”, pensei. Fechei a porta e fui em direção a casa dele. Não havia barulho vindo de dentro. Ninguém em casa. Me abaixei e joguei o dinheiro com o bilhete de baixo da porta. Enquanto descia encontrei com Jay e ele perguntou se eu estava bem, porque estava com o rosto inchado... Que ótimo, todo mundo ia perceber... Ele também me disse que a Bia e o carro já estava me esperando.
Entrei e fiquei conversando com a Bia, mas sempre olhando para o chão do carro, para ela não perceber que eu tinha chorado, mas ela levantou meu rosto com uma das mãos e me deu um sorriso.
– Eu sei que aconteceu alguma coisa, e você deveria me contar o que houve. – contei a ela toda a história e por fim, quando já estava boquiaberta, respondeu:
– MAS QUE VADIA ESSA KELSEY!
– Concordo com você!
– Você deveria ter dito mais coisas pra ela, sei lá, ou batido nela!
– Eu? Nunca fui de briga! Não sei com que coragem eu falei aquelas coisas pra ela...
– Aaah, falando em coragem, o Siva tava te procurando hoje.
– O que tem haver com coragem?
– Não sei, de alguma forma eu lembrei dele... Acho que ele quer falar alguma coisa com você.
– Ok, isso não é bom, é?
– Ele parecia feliz.
Lilyan’s POV off
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